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Sala Afonso Cruz PONTOS DE LUZ UMA JORNADA FOTOGRÁFICA
A exposição “Pontos de Luz” de Rui Santos reúne um conjunto de 26 fotografias produzidas originalmente no âmbito da documentação de espectáculos do CAE. Fazer justiça a este núcleo — fragmento apenas de um percurso longo e discreto — implica, porém, deslocar o olhar da eficácia documental para uma outra dimensão do trabalho do autor. Mais do que a capacidade de fixar visualmente instantes irrepetíveis, estas fotografias revelam uma prática autoral que constrói a imagem como gesto de leitura, a bem dizer, como gesto de interpretar aquele acontecimento a partir da luz, do espaço, do tempo e da relação entre corpos, matéria cénica e público. A negociação com o espaço prolonga-se a uma relação particular com o tempo. Se a fotografia de espectáculo tende muitas vezes a privilegiar o instante culminante, o gesto imediatamente reconhecível ou aquilo que o arquivo confirmará retrospectivamente como “o momento”, aqui a ideia de momentum adquire uma formulação mais complexa. O interesse parece residir menos na captura do auge e mais na apreensão de estados de suspensão expressivos: concentração, intensidade latente, expansão. A imagem capta o que antecede ou prolonga o acontecimento visível — a respiração antes da entrada musical, a tensão muscular do corpo performativo, a atenção dedicada que circula entre palco e plateia. Deste modo, não secciona o fluxo do espetáculo, condensa-o. É dessa suspensão expressiva, dessa modelação lumínica e desse desenho espacial que Rui Santos constrói plasticamente as suas imagens: em AUTÓPSIA, de Olga Roriz, a composição centrada nas pernas elevadas converte o corpo num desenho quase abstracto, simultaneamente rítmico e escultórico; em Sevilla Flamenco Company, a geometria das posições corporais, articulada com a direcção da luz, produz uma tensão formal que resiste à mera ideia de explosão cinética; no plongée sobre o piano do Figueira Jazz Fest, a estrutura do instrumento reorganiza a percepção da performance musical, tornando-se ela própria paisagem visual. Deve ainda notar-se a presença recorrente do público. Em Ana Lua Caiano, Sofia Escobar, Ficheiros Secretos ou O Quebra-Nozes, a audiência não permanece fora de campo nem surge reduzida a ruído periférico. Integra activamente a composição, lembrando que o espectáculo é uma experiência relacional, feita de atenção, circulação afectiva e comunidade temporária. A fotografia não observa apenas quem actua; observa igualmente quem recebe, quem espera, quem partilha o mesmo tempo suspenso da representação. É talvez aí que o conjunto de imagens expostas em “Pontos de Luz” encontra uma das suas singularidades mais discretas. Sem renunciar à sua origem documental, o trabalho de Rui Santos desloca continuamente a fotografia para um território de interpretação artística. Conhecedor íntimo das costuras desta sua segunda casa — o CAE — que percorre com a naturalidade de quem aprendeu a existir sem perturbar a cena, o fotógrafo não procura afirmar uma falsa objectividade nem reclamar protagonismo sobre aquilo que documenta. O seu gesto opera noutro lugar: o da capacidade de reconhecer, dentro da duração efémera do espectáculo, uma potência especificamente fotográfica, feita de luz, enquadramento, ritmo espacial e relação com o outro. Maria Coutinho Sala Afonso Cruz | Entrada livre |
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